Esportes nas empresas: Complexidade da integração interpessoal

Interação social na empresa

Ao refletir sobre as relações sociais presentes no ambiente empresarial e as conseqüências destas na vida dos trabalhadores, torna-se necessário um entendimento acerca das formas de comunicação e relacionamento existentes nesse meio. A competitividade e a exigência de alta produtividade interferem na inter-relação entre os sujeitos em função de interesses comerciais, influenciando as formas e as intenções dos discursos.

Para nortear um entendimento acerca da comunicação e, conseqüentemente, das interações sociais próprias desse ambiente, recorremos à obra do filósofo alemão Jürgen HABERMAS (1987, 1989).
Sua teoria (TAC - Teoria da ação comunicativa) discute a linguagem e a formação da sociedade e as relações intersubjetivas entre sujeitos pertencentes a um mundo social subjetivo-objetivo que, posteriormente administrado, pauta as relações entre indivíduos por uma lógica representada por hierarquias e interesses de ganhos de poder e moeda. HABERMAS (1987) fundamenta sua teoria em dois ambientes de relações humanas, baseados nas interações sociais criadas e legitimadas de acordo com os interesses do coletivo e do meio em que este opera.

O primeiro ambiente é o "mundo da vida", no qual as formas de interação seriam pautadas em leis universais de preservação da vida e em interações espontâneas entre sujeitos, subsidiadas pela cultura própria da sociedade à qual pertencem. Esse ambiente se caracteriza por agrupar relações entre sujeitos através da Ação Comunicativa.

As interações entre indivíduos se dão com o objetivo de troca de informações na busca por consensos, sem segundas intenções, preservando os valores fundamentais culturalmente adquiridos. O segundo ambiente se dá no interior dos "sistemas" que surgem através da complexificação da sociedade e onde a linguagem, a interação e a subjetividade (mundo da vida) são para uso estratégico, numa relação entre desiguais, onde um detém o poder sobre o outro. Aqui se estabelece a razão sistêmica caracterizada por uma racionalização do social de acordo com princípios do Estado e da economia, imprimindo formas de relação estratégicas entre os envolvidos. A Ação Estratégica leva o sujeito à perda de sua autonomia e individualidade, através de um processo de burocratização das relações, que se apodera dos processos espontâneos de formação de opinião, fazendo com que os indivíduos ajam de acordo com o meio.

Apresentados os dois ambientes definidos, torna-se possível uma associação destes com a empresa e o esporte.

O ambiente empresarial contempla ações estratégicas derivadas da colonização do mundo da vida, artificializando as relações entre sujeitos e expressando atos de poder e submissão. Isso decorre das relações burocráticas próprias desse meio, da necessidade de aumento de produtividade do trabalhador e da cobrança e responsabilidade que a competitividade do mercado impõe.

A empresa não compõe exatamente um coletivo, mas deve ser percebida como um conjunto de alianças temporárias e variáveis.

Todos os seus membros determinam planos individuais de ação e articulam alianças em função de objetivos pessoais.

A forma de interação então não constitui necessariamente um meio de integração social positivo entre funcionários da mesma empresa, pois as relações são determinadas pelos interesses de ganhos individuais e as ações de cooperação se dão a partir de uma lógica estratégica ou, em outras palavras, a cooperação só pode ocorrer nos limites da superposição de interesses individuais.

É possível observar a ocorrência de ações de cooperação e competição entre colegas, pois se trata de um ambiente estratégico. A primeira exemplifica mais facilmente a colonização do mundo da vida, pois não se dá de forma totalmente voluntária e livre de coerção, mas de acordo com objetivos externos como o lucro e ascensão profissional. As ações se baseiam nos interesses pessoais e cada indivíduo se comporta como adversário, ou parceiro, dos sujeitos à sua volta de acordo com a estratégia a ser adotada.

Nota-se que há uma complexidade nessas relações, pois um ambiente, por mais estratégico que seja, acarreta ações cooperativas em certas ocasiões.

A empresa deve ser vista como um grande conjunto de grupos mutáveis, que se contrapõem e se associam conforme as exigências de cada conjuntura. Nesse contexto, o membro da organização participa concomitantemente de vários grupos, sempre priorizando a busca racional de seus objetivos pessoais.

É de interesse da empresa que, além de buscar seus próprios objetivos pessoais, o indivíduo saiba agir de acordo com os objetivos da corporação, e trabalhe para que esta permaneça saudável. Isso demanda ações cooperativas entre os funcionários.

Esporte na empresa competição e cooperação na empresa é o fato de os sujeitos envolvidos agirem de acordo com seus objetivos pessoais, embora de acordo com as normas e necessidades da empresa. Para isso, é importante que o funcionário tenha uma relação saudável com os propósitos e a marca da instituição que o emprega, sinta-se importante e usufrua de condições favoráveis para a execução de seu trabalho.

Nesse ambiente se estabelece uma inter-relação mútua entre empregado e empresa. Por um lado, a empresa necessita de funcionários capacitados, motivados e em condições de saúde clínica e emocional ótimas para exercerem suas respectivas funções com alta produtividade. Por outro, o empregado necessita de condições favoráveis para a produção, tanto em relação ao local quanto à carga e ao ambiente social de trabalho. O fato de que um ambiente que visa exclusivamente o aumento da produtividade e a busca por lucros, e desconsidera o empregado como um ser humano integral, corre o risco de prejudicar a saúde e a capacidade de produção de seu pessoal. Num processo de produção pautado nesses objetivos, é possível observar a utilização do Homem como uma ferramenta, ou "Organismo morto", que funciona à base do estímulo- resposta.

O fato de que a cobrança exagerada e a necessidade de lucratividade, assim como o ambiente empresarial muito competitivo, exercem influência negativa sobre a saúde psicológica e social dos funcionários. É possível afirmar que esse ambiente opera como um dificultado para a manutenção do bem-estar do funcionário em seu local de trabalho, diminuindo sua capacidade de produção.

É do interesse da empresa, na busca por maior produtividade, que os funcionários sintam-se bem no ambiente de trabalho, e que esse bem-estar advenha não somente de saúde clínica, mas também de interações sociais positivas entre colegas. A manutenção do bem-estar e qualidade de vida dos empregados, além de estar relacionada às formas de comunicação, é necessária para uma maior identificação do funcionário com seus colegas e local de trabalho. Muitas empresas consideram essa idéia, e investem em programas de qualidade de vida para seus funcionários. A prática direcionada de atividade física pode colaborar com a melhoria das interações sociais entre colegas. Essa inserção consiste em solidificar as relações pessoais e influenciar as formas de comunicação, melhorando a capacidade de produção dos empregados.

Ao desenvolver um programa de atividade física na empresa, é preciso considerar não somente os benefícios fisiológicos do mesmo, mas também buscar atender a outros níveis de exigência do ser humano. Tais níveis dizem respeito a necessidades de relacionamento, bem-estar e auto-estima. As estratégias utilizadas para a promoção de bem-estar, manutenção da saúde, integração social e uma identificação maior dos funcionários com a marca da empresa são muitas. A prática esportiva se apresenta como uma dessas possibilidades, pois o esporte é um fenômeno social que além de incentivar a atividade física, promove interação social e influencia no relacionamento e nas formas de comunicação entre os participantes.
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