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Em pesquisa
relacionada à empresa Singer, que a principal razão de adesão
dos funcionários ao clube da entidade é a possibilidade de
prática esportiva. De acordo com a publicação "Esporte e lazer
na empresa", do Ministério da Educação do Brasil de 1990,
a principal atividade desenvolvida nos clubes subvencionados
a empresas é a de caráter esportivo.
O esporte se coloca como uma forma de promover práticas voltadas
à melhoria da qualidade de vida dos indivíduos no ambiente
da empresa, além de funcionar como uma prática de aproximação
entre funcionário-empresa.
Porém, a simples ocorrência de atividades esportivas não garante
que seja desenvolvido um sentimento de integração entre colegas,
a identificação com o local de trabalho, o desenvolvimento
da individualidade e auto-estima do empregado. É importante
que haja, por parte dos organizadores de atividades esportivas,
conhecimento específico a respeito dos valores e das formas
de manifestação do esporte.
Num ambiente em que as atividades esportivas de lazer são
pautadas em normas do alto-rendimento, valores como o individualismo,
a rivalidade e a segregação podem vir a ser transmitidos,
pois esse modelo valoriza os vencedores em detrimento das
opiniões, à não-rivalidade, à cooperação e à integração entre
indivíduos que se inter-relacionam.
Quanto à ação estratégica, além dos valores referentes à rivalidade,
segregação, concorrência, sobrepujança ao adversário, valorização
do resultado e alcance dos objetivos (vitória) a qualquer
custo, também podemos perceber a colonização das características
da ação comunicativa. Nota-se certa relação entre os valores
do esporte de alto-rendimento e as ações estratégicas, e os
valores do esporte como lazer e as ações comunicativas. Porém,
isso não é tão simples. No esporte de alto-rendimento é possível
observar ações cooperativas entre colegas, assim como não
é difícil flagrar momentos de rivalidade e competição exacerbada
em ambientes pautados no esporte como lazer. Estabelece-se
nessa relação certa complexidade entre cooperação e competição
no esporte, assim como de ações comunicativas e estratégicas,
já que na realidade concreta as relações não se mostram tão
exatas e definidas. Toda situação de interdependência entre
dois ou mais indivíduos contém o jogo social expresso em:
a) Processo associativo: cooperação, acomodação e assimilação;
b) Processo dissociativo: competição e conflito. Ambos os
ambientes, esportivo e empresarial, apresentam formas complexas
de relação, pautadas em ações cooperativas e/ou competitivas.
A Cooperação é um processo onde os objetivos são comuns, as
ações são compartilhadas e os resultados são benéficos para
todos; A Competição é um processo onde os objetivos são mutuamente
exclusivos, as ações são individualistas e somente alguns
se beneficiam dos resultados.
Tanto no esporte quanto no ambiente empresarial, a competição
se faz presente. No primeiro, em muitos casos, como uma condição
para a ocorrência da prática, e no segundo, devido à constante
busca por lucro e ascensão. Por outro lado, a cooperação é
importante, pois mantém os parâmetros mínimos para a prática
esportiva e, no caso da empresa, os indivíduos precisam trabalhar
de forma associada e em benefício da corporação. A partir
do ponto de vista das semelhanças a respeito das formas de
comunicação e inter-relação dos sujeitos envolvidos no esporte
e na empresa, é possível percebê-los e analisá-los de acordo
com os valores e objetivos desses ambientes, e a possibilidade
de influência de um sobre o outro perdedor. Pode-se notar
aqui toda a complexidade da relação, pois a necessidade de
buscar a vitória pode gerar entre os participantes uma competição
excessiva, mas por outro lado, também exige ações cooperativas.
Essas ações podem ser expressas tanto entre colegas de equipe
que se ajudam na busca pela vitória, como entre grupos adversários
que precisam agir dentro das normas estabelecidas, colaborando
para manter a disputa dentro de uma legalidade definida, legitimando
assim o futuro vencedor.
Já a prática esportiva pautada em normas do esporte de lazer
ressignificado sugere ações cooperativas em suas atividades,
visto que o objetivo é promover um processo de atividade esportiva
independente da nomeação de melhores ou piores, vencedores
e perdedores. Convém observar que nesse tipo de atividade
podem também ocorrer ações competitivas, visto que a competição
é intrínseca ao esporte, e em alguns casos, como os esportes
coletivos, por exemplo, existe a necessidade da presença de
um oponente para a realização da prática. Num ambiente em
que os valores do esporte ressignificado não estejam solidificados,
indivíduos podem vir a tomar atitudes não-condizentes com
o ambiente em que se encontram, e a rivalidade e o excesso
de competitividade se tornarem mais presentes do que ações
de cooperação. Nota-se que as atitudes de rivalidade transformam
os valores transmitidos pela prática ressignificada, descaracterizando-a.
Mora aí a inserção do profissional responsável pela atividade,
com o intuito de conduzi-la de modo a preservar os objetivos
e valores ressignificados propostos pela prática. Portanto,
para a ocorrência de um ambiente pautado no esporte de lazer
ressignificado, a simples alteração de regras não se faz suficiente.
É preciso que os propósitos da prática sejam adaptados, transmitindo
valores apropriados.
Essa mesma complexidade pode ser observada também no ambiente
empresarial, embora seja mais fácil relacionar esse meio com
as normas do esporte de alto rendimento do que com o esporte
de lazer ressignificado. Levando em conta que no ambiente
empresarial não há interação perfeitamente cooperativa ou
conflitante, mas que as relações cooperativas tendem a ser
mais estáveis no tempo, essa complexidade de relações, similar
à que se encontra no ambiente esportivo, ilustra a possibilidade
de aproximar a prática esportiva e a empresa.
A intenção aqui, não é solucionar as diferenças entre ações
cooperativas, e competitivas nos ambientes analisados, mas
destacar a importância e a complexidade da adoção do esporte
enquanto atividade que pode, através de práticas monitoradas
por especialistas; transmitir valores que interfiram, otimizem
e potencializem as relações de comunicação entre os funcionários
de uma empresa e estreitem os laços empresa- empregado, baseando-se
na similaridade entre os dois ambientes (empresarial e esportivo)
quanto às formas de comunicação entre os sujeitos envolvidos.
Possibilidade de inserção do esporte em programas de qualidade
de vida na empresa.
As instituições empresariais, no intuito de estabelecer um
ambiente positivo para a produtividade dos funcionários através
de participação comunicativa dos sujeitos, têm como uma das
principais responsabilidades o compromisso com o crescimento
e a realização pessoal dos seus membros. Isso implica na melhoria
de condições de trabalho, desde a preocupação com a manutenção
da saúde clínica e de bem-estar dos funcionários, até às formas
de relacionamento e comunicação interna da empresa. A idéia
é chamar a atenção para um aspecto da prática de atividade
física nas organizações que não diz respeito apenas aos efeitos
e transformações fisiológicas e de prevenção de doenças clínicas,
mas refere-se também às relações sociais entre os sujeitos
e sua interferência na capacidade de trabalho do funcionário.
Uma das questões pertinentes à qualidade de vida dos empregados
é a relevância de alguns níveis de exigência do ser humano,
como necessidade de relacionamento, bem-estar no ambiente
de trabalho e manutenção de sua auto-estima.
Ao adotar programas de qualidade de vida, a empresa deve atentar
para as atividades que estão sendo propostas e como estão
sendo aplicadas.
O esporte é uma forma de atividade física que, além de auxiliar
na promoção do anti-sedentarismo e de benefícios à saúde clínica,
pode incentivar formas de relacionamento saudáveis entre os
participantes, através da transmissão de valores que privilegiem
a cooperação e interação positiva.
A inserção do esporte na empresa, através dos clubes subvencionados,
pode ser facilitada pelas similaridades a respeito das formas
de relacionamento entre o ambiente esportivo e empresarial.
Por se tratar de um meio extremamente competitivo e pautado
em ações estratégicas, o ambiente empresarial não carece de
reforçar sentimentos de competição, segregação e comparação
entre os funcionários nos seus programas de promoção e manutenção
de qualidade de vida.
Muito pelo contrário, sendo o esporte uma atividade realizada
fora do ambiente de trabalho, com o intuito de promover melhores
interações sociais entre os participantes, é conveniente que
transmita valores de cooperação e de ações comunicativas.
Isso é possível através de práticas que valorizem o processo
e não somente o resultado da atividade esportiva. Tais atividades
são pautadas no esporte de lazer ressignificado, no qual as
regras e normas do alto rendimento, assim como seus valores,
não são necessariamente adotados.
Para que esta proposta tenha sucesso é necessário, em primeiro
lugar, a presença de profissionais qualificados para a promoção
de atividades esportivas próprias para tais objetivos, pois
a simples aplicação de atividades não se faz suficiente. É
necessário, para um processo de comunicação positivo entre
promotor da prática e praticantes, que haja um conhecimento
a respeito de valores transmitidos pelo esporte e seus significados.
O esporte pode ser promovido através de duas formas de atividades,
Formais e Não-formais:
Formais (Objetivam a forma física): Maior representação
externa da empresa; Orientada para disciplina e regularidade;
Maior custo per capta no atendimento; Abrangência menor na
população da empresa; Regulada por legislação (esporte e Educação
Física); Resultados diretos mensuráveis.
Não-formais (Objetivam o bem-estar): Maior atendimento
com menor custo; Ênfase no voluntário e na participação; Inclui
familiares dos empregados; Admite adaptação nas instalações
e áreas da empresa; Permite participação da comunidade local,
fornecedores ou contratantes; Compartilha instalações e programas
com atividades de lazer, reduzindo custos; Resultados indiretos
mensuráveis. Em relação às atividades formais, caracterizadas
por seguirem de forma integral as normas de procedimentos
do alto-rendimento, nota-se que abrangem um número menor de
pessoas na empresa, pois esse modelo exige do participante
um nível competitivo de performance esportiva. Esse fator
sugere valores de segregação e rivalidade entre participantes,
podendo agir de forma desestimulante à prática. Não defendemos
a abolição deste tipo de atividade, mas a sua adaptação às
necessidades de relacionamento do público participante.
Tomemos como exemplo a substituição de "torneios internos",
que buscam nomear vencedores e segregar bons de ruins, por
"festivais internos", que venham a incorporar valores próprios
do esporte ressignificado, nos quais os participantes têm
as mesmas oportunidades de participação e o processo de prática
no evento é mais valorizado do que o resultado do mesmo, já
que este último, não objetiva a nomeação de vencedores. É
importante destacar que a intenção não é excluir a competição
da prática esportiva, mas sim, ressignificá-la, desvalorizando-
a em relação às possibilidades de práticas ocorridas durante
o processo da atividade. As atividades não-formis, se fundamentadas
nos princípios do esporte ressignificado, com o objetivo de
transmissão de valores próprios, caracterizam-se pela re-criação,
adaptação, e alteração de regras próprias do esporte de alto-rendimento
e privilegiam a cooperação entre os participantes. Como exemplo
desse tipo de atividade, utilizaremos um jogo de voleibol.
Se praticado sob as normas do alto rendimento, pode vir a
prejudicar a participação dos indivíduos, devido à exigência
técnica, segregação entre bons e ruins, e contagem rápida
de pontos que podem acelerar o fim de uma partida. Através
da adaptação de regras, materiais e dos valores da prática,
é possível facilitar a participação de todos, promovendo a
inclusão e cooperação entre os participantes. Por exemplo,
o uso de uma bola mais leve, que demora mais a cair, formas
adaptadas de regras e contagem de pontos, revezamento de equipes
no jogo desvinculado do resultado das partidas e apoiado no
princípio de proporcionar e facilitar o maior tempo possível
de participação a todos os envolvidos.
O intuito de qualquer adaptação de regras e ressignificação
de valores é proporcionar maiores possibilidades de participação
para indivíduos com diferentes níveis de habilidade e conhecimento
do jogo, além de valorizar as ações do grupo e desvalorizar
o resultado final da disputa, visto que a determinação e o
destaque de um vencedor muitas vezes não se fazem necessária.
A partir de um processo de ressignificação, o objetivo dos
participantes deixa de ser unicamente a vitória, mas principalmente
a manutenção da realização do jogo pelo maior tempo possível,
e a facilitação da participação ativa de pessoas com características
diferentes.
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